Nacionalismo é uma palavra arraigada
na pulsação da sociedade
Nacionalismo tinha, pois, um primeiro significado, digamos positivo, que
exprimia o patriotismo normal e correspondia ao grande esforço de conhecer o
país. Mas quando apelava para palavras como "brasilidade, começava a se
alterar e adquirir o sentido negativo de conservadorismo político, social e
cultural; de sentimento antipopular e simpatia pelas soluções do
autoritarismo de direita. Por isso, era palavra suspeita aos democratas mais
consequentes e a toda a esquerda. Com os seus toques de xenofobia, patriotada,
autoritarismo e saudosismo, era um conceito e uma posição que desejavam
prolongar o passado e usá-lo para envenenar o presente, opondo-se a
concepções mais humanas, isto é, às que miravam o futuro e procuravam pensar
os problemas da sociedade além do âmbito das nações, como o socialismo, mais
atento ao conceito de luta das classes e de solidariedade internacional dos
trabalhadores, do que aos estados nacionais se afirmando com vontade de
poderio.
Eis senão quando, no começo dos anos 40, a meca dos socialistas daquele
tempo, a União Soviética, sente a ameaça e depois sofre a invasão alemã. Sob
este impacto, começou a revalorizar o seu passado, os seus heróis nacionais
(alguns dos quais execrados até então), tornando-os protagonistas de filmes
patrióticos: Alexandre Nevski, Ivan, o Terrível, Pedro, o Grande, Kutuzof. Ao
mesmo tempo pôs-se a cultuar a bandeira, o solo sagrado, e a verberar, não o
inimigo de classe, mas o "inimigo tradicional, que vinha das planícies
ocidentais -niemetz, cavaleiro teutônico, nazista. O hino internacional dos
trabalhadores cedeu lugar a hinos patrióticos, e Stalin recebeu como
designativo obrigatório o de "guia genial dos povos (da URSS). Sob o
impacto da guerra, ressurgiu assim por toda a parte a ideologia nacionalista
extremada, como mecanismo de luta e sobrevivência. E isto influiu no
comportamento das esquerdas.
Na América Latina, depois da guerra, o combate contra as oligarquias acabou
por identificá-las com seu patrono, o imperialismo, de maneira que houve, por
parte das esquerdas, fusão da luta de classes com a afirmação nacional
(através do antiimperialismo). Por parte dos liberais, houve um novo
sentimento de independência econômica, esposado por alguns governos, como, no
Brasil, o mandato final de Getúlio Vargas (1951-1954). Neste contexto,
nacionalismo começa a ser outra coisa. Ao se generalizar a noção da nossa
dependência em relação ao imperialismo, modifica-se o patriotismo eufórico e
ingênuo, substituído pelo sentimento de defesa contra a infiltração política
e cultural, que segue quase sempre a dominação econômica. O ingresso das
esquerdas nesse universo ideológico fez a palavra nacionalismo sofrer uma
alteração semântica de 180 graus. De tal modo, que a direita passa a ser
antinacionalista, e nacionalistas as tendências radicais...
À direita se associa a idéia de servilismo cultural, alienação, imitação,
cosmopolitismo; as tendências radicais incorporam a valorização dos traços
locais, a procura do genuíno brasileiro, com valorização nunca vista antes
nesta escala da cultura popular, das componentes africanas, e uma espécie de
reação contra fórmulas manipuladas fora. Um intelectual combativo, Alberto
Guerreiro Ramos, forja para descrever a situação da sua disciplina a
expressão "sociologia enlatada, a fim de contestar a transferência
mecânica de métodos e teorias elaborados noutros países, e acentuar a
necessidade de elaborá-los aqui mesmo.
A isto se associa como base condicionadora a luta pela defesa das riquezas
naturais, sobretudo o petróleo, objeto, nos anos de 40 e 50, de campanha
memorável liderada pelas esquerdas, mas contando com apoios decisivos à
direita, no Partido Republicano (Artur Bernardes) e na União Democrática
Nacional (Gabriel Passos).
Estas tendências culminaram com os governos que tentaram resistir aos
aspectos mais agressivos do imperialismo, no período final de Getúlio Vargas
e na abertura popular de João Goulart. Todo o país viu então afirmações
culturais muito vivas do sentimento nacional (sob a nova roupagem) no teatro
participante, no Cinema Novo, na música popular brasileira, culminando no
grande esforço do governo Miguel Arraes, em Pernambuco, que patrocinou o
método educacional transformador de Paulo Freire. Estes momentos e estes
movimentos selaram a transferência semântica, consagrando a palavra
"nacionalismo como algo progressista, tanto na busca de uma cultura
vinculada ao povo, quanto na politização da inteligência e da arte -tudo
englobado na luta contra a servidão econômica em relação ao imperialismo (em
nosso caso, sobretudo norte-americano) e a favor da incorporação efetiva à
vida nacional das populações marginalizadas e espoliadas.
O objetivo deste artigo foi verificar por alto a flutuação da palavra
"nacionalismo (que é uma espécie de ímã atraindo limalhas diferentes
conforme a hora), com preferência pelos aspectos culturais.
Recapitulando: na história brasileira deste século, têm sido ou podem ser
considerados formas de nacionalismo o ufanismo patrioteiro, o pessimismo
realista, o arianismo aristocrático, a reivindicação da mestiçagem, a
xenofobia, a assimilação dos modelos europeus, a rejeição destes modelos, a
valorização da cultura popular, o conservantismo político, as posições de
esquerda, a defesa do patrimônio econômico, a procura de originalidade etc.
etc. Tais matizes se sucedem ou se combinam, de modo que por vezes é
harmonioso, por vezes, incoerente. E esta flutuação, esta variedade, mostra
que se trata de uma palavra arraigada na própria pulsação da nossa sociedade
e da nossa vida cultural.
Hoje, nacionalismo é pelo menos uma estratégia indispensável de defesa,
porque é na escala da nação que temos de lutar contra a absorção econômica do
imperialismo. Ser nacionalista é ser consciente disto, mas também dos perigos
complementares.
Ficando no terreno cultural, alguns lembretes. Se entendermos por
nacionalismo a exclusão das fontes estrangeiras, caímos no provincianismo;
mas, se o entendermos como cautela contra a fascinação provinciana por estas
fontes, estaremos certos. Se nacionalismo for aversão contra outros países, mesmo
imperialistas, será um erro desumanizador; mas, se for valorização dos nossos
interesses e componentes, na sua pluralidade, além de defesa contra a
dominação por parte desses países, será um bem. Se entendermos por
nacionalismo o desconhecimento das raízes européias, corremos o risco de
atrapalhar o nosso desenvolvimento harmonioso; mas, se o entendermos como
consciência da nossa diferença e critério para definir a nossa identidade,
isto é, o que nos caracteriza a partir das matrizes, estamos garantindo o
nosso ser -que é não apenas "crivado de raças (como diz um poema de
Mário de Andrade), mas de culturas.
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